terça-feira, 4 de junho de 2013

Os Recém-Chegados do Umbral.


(...) – Minha irmã, essa razão de paz espiritual era falsa. Os escravos eram igualmente nossos irmãos. Perante o Pai Eterno, os filhinhos dos servos são iguais aos dos senhores.

Ouvindo-me, ela bateu o pé autoritariamente e falou, irritada:

– Isso é que não! Escravo é escravo. Se assim não fora, a religião nos ensinaria o contrário. Pois se havia cativos em casa de bispos, quanto mais em nossas fazendas? Quem haveria de plantar a terra, senão eles? E creia que sempre lhes concedi minhas senzalas como verdadeira honra!... Em minha fazenda nunca vieram ao terreiro das visitas, senão para cumprir minhas ordens. Padre Amâncio, nosso virtuoso sacerdote, disse-me na confissão que os africanos são os piores entes do mundo, nascidos exclusivamente para servirem a Deus no cativeiro. Pensa, então, que me poderia encher de escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas? Não tenha dúvida; os escravos são seres perversos, filhos de Satã! Chego a admirar-me da paciência com que tolerei essa gente na Terra. E devo declarar que saí quase inesperadamente do corpo, por me haver chocado a determinação da Princesa, libertando esses bandidos. Decorreram muitos anos, mas lembro-me perfeitamente. Achava-me adoentada havia muitos dias e, quando padre Amâncio trouxe a nova da cidade, piorei de súbito. Como poderíamos ficar no mundo, vendo esses criminosos em liberdade? Certo, eles desejariam escravizar-nos por sua vez, e a servir a gente dessa laia, não seria melhor morrer? Recordo que me confessei com dificuldade, recebi as palavras de conforto do nosso sacerdote, mas parece que os demônios são também africanos e viviam à espreita, sendo eu obrigada a sofrer-lhes a presença até hoje...

– E quando veio? - perguntei.

– Em maio de 1888.

Experimentei estranha sensação de espanto.

A interlocutora fixou o olhar embaciado no horizonte e falou:

– É possível que meus sobrinhos tenham esquecido de pagar as missas; entretanto, deixei a disposição em testamento.

Ia responder, convocando-lhe os raciocínios à zona superior, fornecendo-lhe ideias novas de fraternidade e fé, mas Narcisa aproximou-se e disse-me, bondosa:

– André, meu amigo, você esqueceu que estamos providenciando alívio a doentes e perturbados? Que proveito lhe advém de semelhantes informações? Os dementes falam de maneira incessante e quem os ouve, gastando interesse espiritual, pode não estar menos louco. (...)

Livro: Nosso Lar, pelo espírito André Luiz, de Francisco Candido Xavier.

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